Foi em Dezembro de 2025 que atingimos o ponto de não retorno. Uma infeliz sequência cronológica de Natal e Ano Novo propícia a fazer pontes, que danificou irreparavelmente o ecossistema de resíduos.
No início, apenas uma tampa ligeiramente levantada. Um senhor que vem deitar a reciclagem mas, deparando-se com o contentor amarelo que não é esvaziado desde a última reconquista de Portugal a Castela, coloca as suas embalagens cuidadosamente ao lado do receptáculo, para que estas sejam tombadas pelo vento assim que ele vira costas. A Natureza revolta-se contra esta afronta ecológica, o lixo não é suposto pavimentar o piso.
Horas depois, sacos inteiros começam a acumular-se em torno deste epicentro de resíduos. As proporções tornam-se preocupantes, a vila entra em alvoroço, avós rezam em recantos escuros e frios da casa, iluminadas por uma única vela trazida especialmente de Fátima para ocasiões críticas como esta.
As suas preces são ouvidas. De capacete, montados no seu nobre camião, os Homens (e Mulheres) do Lixo fazem a recolha dias após o Natal.
As hostes celebram. A CMTV chega ao local e apresenta a peça. Recolhem relatos:
“Pensei que o mundo ia acabar, que os nossos filhos nasceriam no lixo e viveriam no lixo.”
“Estou tão contente que vou trazer já os sacos que acumulei em casa nos últimos dias! Talvez até mande fora uma cómoda da minha sogra e uma lata de lâminas de barbear do meu bisavô!”
Politicos juntam-se parasiticamente ao ajuntamento, procurando lançar as suas bandeiras de campanha:
– A câmara vê estes casos com a devida atenção e está pronta a atuar com todos os meios necessários – “Quais meios”, questiona a jornalista. – Aqueles que são necessários, – responde o vereador, provando o seu profundo conhecimento na emissão de resíduos, nomeadamente oral.
– A verdade é que estes casos calamitosos têm de cessar, e o [nome do partido da oposição] apresentou planos concretos para evitar tais catástrofes – “Que propostas fez o seu partido”, questiona a jornalista. – “Fizemos todas as propostas detalhadas necessárias à minha intervenção nesta entrevista”, responde o líder da oposição, enquanto coloca um crachá na lapela dos seus militantes, intitulado “somos todos lixo”.
Eventualmente as celebrações amainam, cessando completamente. Mas a fundação para a segunda e pior vaga está já em construção. Menos de 12 horas após a recolha, já os contentores estão a meio. Às 14 horas pós-recolha, os contentores estão cheios.
A populaça não quer atingir a mesma situação cataclísmica de outrora. Prevê-se nova escassez de recolha. Os locais pegam no carro e migram com o seu lixo, procurando estações mais vazias, mais propícias. Ao longo de dias, estas migrações tornam-se mais longas, uma corrida ao ouro, sendo o ouro o espaço dentro de um caixote. Infelizmente, estando todas as pessoas de todos os lugares na mesma situação, apenas conseguem colocar lixo nos caixotes uns dos outros.
No segundo dia, as tampas já não estão apenas abertas, estão quebradas. As migrações de resíduos tornam-se residuais, a esperança esmorece. As consequências da existência residencial são colocadas em torno dos caixotes, e crescem dia-após-dia. Ainda não atingimos 2026 mas os contentores deixaram de ser visíveis, são agora a fundação das pirâmides de sacos. A reciclagem não existe, assume-se que nunca mais será recolhida, o cartão do contentor azul está em repouso há tanto tempo que se reorganiza e começa a crescer uma árvore, que rapidamente se torna ela também alicerce à edificação de lixo.
Atingimos agora 2026. As pessoas não têm mais espaço em casa, não querem sacrificar preciosos metros quadrados às sobras de 2025. Estamos noutro ano, não os podemos começar com as réstias do anterior. A decência definha, o sentido comunitário cessou, o lixo é colocado o mais perto do contentor, atirado para o topo desta pirâmide que rivaliza os faraós egípcios. Eventualmente um ou outro aldeão já se tornou parte integrante, num ou outro desabamento. A pirâmide não precisa de recolha, precisa de engenheiros civis.
As mesmas velhas tentam rezar na noite… mas as velas acabaram, e não é de noite, estão apenas à sombra da torre do lixo. Incapazes de serem ouvidas, voltam a sua fé para outras divindades. Correm boatos da torre de detritos falar. Estes boatos deturpam-se, evoluem em lendas. Pessoas vestem-se com sacos vileda e ajoelham-se perante a pirâmide. A religião organiza-se, condenam-se as indústrias de tratamento de resíduos. As estradas são cortadas com sacos de restos de cabrito e confettis.
A sociedade culmina na execução total da lei da entropia. A oposição ao partido foi profética. Agora, somos todos lixo.